Dia da Mulher: celebrar e construir caminhos
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*Artigo desenvolvido por: Giselle Dutra - Mestre em Educação, Professora e Palestrante sobre Adoção de Crianças e Adolescentes.

Introdução
Falar sobre o Dia Internacional da Mulher no Brasil é sempre um exercício de responsabilidade. Não porque faltem palavras bonitas. Pelo contrário: elas já foram ditas muitas vezes. O desafio é não cair na repetição confortável.
Como celebrar um dia dedicado às mulheres em um país onde, segundo dados do Ministério das Mulheres, mais de 1.568 feminicídios foram registrados em 2025, o equivalente a cerca de quatro mulheres assassinadas por dia?
Ao mesmo tempo, o país registrou mais de 83 mil casos de estupro de mulheres no mesmo ano, o que representa quase 227 casos por dia.
Esses números não são apenas estatísticas.Eles revelam o tamanho do caminho que ainda precisamos percorrer.
Por isso, quando penso no Dia da Mulher, não penso apenas em celebração. Penso em compromisso que exige consciência, compromisso e ação.
Uma trajetória guiada por propósito
Minha trajetória profissional nunca foi guiada apenas por cargos ou metas. Ela foi guiada por propósito. E eu sei que essa palavra anda um pouco desgastada. Às vezes parece coisa de palestra motivacional.
Mas a verdade é que o tempo testa todas as palavras — e algumas sobrevivem. Propósito é uma delas.
Ao longo dos anos, trabalhando na educação, na construção de projetos e também no acompanhamento de famílias e processos de adoção, fui entendendo que trabalhar com propósito significa algo muito simples: não conseguir mais fazer de outro jeito.
Quando você percebe o impacto que seu trabalho pode ter na vida das pessoas, voltar atrás deixa de ser uma opção. Foi esse entendimento que me aproximou ainda mais da missão da Jovens Gênios.
O encontro com a cultura da Jovens Gênios
Na Jovens Gênios encontrei algo que me conecta profundamente: a crença de que educação e tecnologia podem caminhar juntas para ampliar oportunidades. Não se trata apenas de desenvolver plataformas ou ferramentas digitais. Trata-se de construir soluções que ajudem educadores e estudantes a aprender melhor, com mais autonomia, criatividade e sentido.
Essa visão faz ainda mais sentido quando lembramos que a transformação da educação acontece, antes de tudo, nas pessoas.
Como dizia o educador Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” E, no Brasil, muitas dessas pessoas que sustentam essa transformação todos os dias são mulheres.
Tenho o privilégio de trabalhar todos os dias com mulheres extraordinárias. Mulheres resilientes, que enfrentam jornadas múltiplas, que se reinventam continuamente. Na Jovens Gênios encontro isso de forma muito concreta.
Mas, para além das equipes e dos projetos, existe um grupo de mulheres que é impossível não mencionar neste Dia da Mulher: as educadoras brasileiras. Professoras. Coordenadoras. Gestoras escolares.
Mulheres que vivem uma realidade que muitas vezes permanece invisível. Elas atravessam várias jornadas no mesmo dia. Estão na escola pela manhã, preparando aulas, mediando conflitos, acompanhando estudantes. Depois seguem para outra escola, para outra turma, para outro turno. E quando chegam em casa, continuam exercendo outros papéis: mães, cuidadoras, responsáveis por uma rede de afetos e responsabilidades.
Precisamos olhar com muito mais atenção para quem está no centro desse processo. Por isso, não quero apenas parabenizar as Mulheres pelo dia 8 de março, quero trabalhar em favor dessas mulheres.
Trabalhar em favor delas na educação, construindo soluções que nasçam também do olhar de quem já esteve dentro da sala de aula. Trabalhar em favor delas apoiando outras mulheres na profissão, criando redes de colaboração em vez de competição. Trabalhar em favor delas nos espaços em que atuo com famílias e adoção, oferecendo escuta, orientação e suporte.
Porque nenhuma mulher deveria enfrentar seus desafios sozinha.
A escritora Carolina Maria de Jesus, ao narrar sua própria vida em meio à pobreza e à exclusão, escreveu algo que continua profundamente atual: “O que eu preciso é viver.”
Essa frase simples carrega uma força enorme. Porque viver, para muitas mulheres, ainda significa resistir todos os dias.
Educar também é construir futuros mais justos
A educação sempre foi um espaço de disputa de narrativas, de valores e de possibilidades. É na escola que aprendemos (ou deveríamos aprender) sobre respeito, convivência, dignidade e igualdade.
A escritora e pensadora bell hooks (sim, em letras minúsculas), que dedicou grande parte de sua obra à educação, dizia que: “A sala de aula continua sendo o espaço de possibilidade.” Possibilidade de mudança. Possibilidade de transformação. Possibilidade de construção de um mundo mais humano.
Por isso acredito tanto no trabalho que realizamos na Jovens Gênios. Porque quando tecnologia, educação e propósito caminham juntos, não estamos apenas desenvolvendo ferramentas.
Estamos ampliando horizontes.
Estamos criando condições para que mais estudantes, mais educadores e mais comunidades possam aprender, crescer e transformar realidades.
Um convite neste Dia da Mulher
Talvez o maior desafio deste dia seja justamente este: não transformar a data em um momento isolado de celebração. Mas em um ponto de partida. Um convite para que cada um de nós — educadores, gestores, estudantes, famílias — pense no papel que pode desempenhar na construção de uma sociedade mais justa.
Se a educação muda pessoas, e pessoas mudam o mundo, então cada gesto importa. Cada sala de aula importa. Cada educadora importa.
E cada história de coragem que atravessa silenciosamente nossas escolas todos os dias merece ser reconhecida.
Se este tema toca você, deixo algumas sugestões de leitura que podem ampliar o olhar sobre educação, sociedade e as múltiplas experiências de ser mulher no mundo contemporâneo. São obras diferentes entre si, escritas em contextos diversos, mas todas têm algo em comum: ampliam nossa capacidade de escuta, reflexão e empatia, com os outros, mas principalmente, com a gente mesmo.
E talvez seja justamente isso que mais precisamos neste momento. Mais escuta. Mais reflexão. Mais compromisso com o futuro.
Com carinho,
Giselle Cristina de Souza Dutra
Supervisora de Formação Continuada Jovens Gênios, Mestre em Educação, Professora e Palestrante sobre Adoção de Crianças e Adolescentes.
Para você:
Brené Brown — A Coragem de Ser ImperfeitoTema: vulnerabilidade, superação do perfeccionismo e desenvolvimento da autoestima.
Nicole Freya — A Mulher Que Você Nasceu Para SerTema: restauração da identidade feminina, propósito de vida e reconexão com a própria essência.
Simone Salgado — Inteligência Emocional FemininaTema: autocuidado, autoconhecimento e desenvolvimento da inteligência emocional na vida pessoal e profissional.
Fernanda Mota Pires Dias (org.) — Mulheres que Transformam: 90 Dias de InspiraçãoTema: histórias reais de empreendedoras, resiliência e superação no mundo dos negócios.
Chimamanda Ngozi Adichie — Para Educar Crianças FeministasTema: educação igualitária, formação de crianças com consciência social e divisão justa de responsabilidades familiares.
Virginia Woolf — Mulheres e FicçãoTema: reflexões sobre o papel das mulheres na literatura e na produção intelectual.
Djamila Ribeiro — Quem Tem Medo do Feminismo Negro?Tema: racismo estrutural, desigualdade de gênero e experiências das mulheres negras na sociedade.
Rebecca Solnit — A Mãe de Todas as PerguntasTema: silenciamento feminino, maternidade, misoginia e reflexões sobre direitos das mulheres.
Megan Twohey e Jodi Kantor — Ela DisseTema: jornalismo investigativo, denúncias de assédio sexual e o impacto global do movimento #MeToo.
Aryane Cararo e Duda Porto de Souza — ExtraordináriasTema: histórias de mulheres que transformaram a história em diferentes áreas e contextos.
Liv Strömquist — A Origem do MundoTema: história cultural do corpo feminino, menstruação e tabus sociais.
Janaina Tokitaka — ABCDelasTema: biografias ilustradas de mulheres que revolucionaram diferentes áreas do conhecimento.
Jenny Jorahl e Marta Breen — Mulheres na LutaTema: história das lutas das mulheres por direitos sociais, políticos e educacionais.
Michelle Obama — Minha HistóriaTema: autobiografia sobre trajetória pessoal, liderança e superação.
Shonda Rhimes — O Ano em que Disse SimTema: enfrentamento de medos, autoconfiança e transformação pessoal.
Carolina Maria de Jesus — Quarto de Despejo: Diário de uma FaveladaTema: desigualdade social, pobreza urbana e a vida de uma mulher negra na favela brasileira.
Malala Yousafzai e Christina Lamb — Eu Sou MalalaTema: luta pelo direito à educação, ativismo e coragem diante da violência.
Clarissa Pinkola Estés — Mulheres que Correm com os LobosTema: psicologia feminina, mitos e fortalecimento da identidade das mulheres.
Referências
ALMEIDA, Daniella. Brasil registra 1.450 feminicídios em 2024. Agência Brasil, 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 12 mar. 2026.
CARINE, Bárbara. Como ser um educador antirracista: para familiares e professores. 1. ed. São Paulo: Planeta, 2023.
BRASIL. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Retrato dos feminicídios no Brasil: nota técnica dia da mulher 2026. São Paulo: FBSP, 2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf. Acesso em: 12 mar. 2026.
BRASIL. Ministério das Mulheres. Relatório Anual Socioeconômico da Mulher – RASEAM 2025. Brasília, 2025.
CARDIN, Adele. Why Brazil’s Femicide Numbers Keep Rising. Rio Times, 2026.
hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
ACIOLI, Socorro. A cabeça do santo. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.



